Corneta: Tradição marcada pela Era Napoleônica

Corneta: Tradição marcada pela Era Napoleônica Nada supera o forjamento na produção de peças de aço. Séculos se passaram e o processo prevalece nas indústrias de todo mundo, favorecidos por novos conhecimentos. O forjamento marca o início do trabalho do aço pelo Homem. E a Corneta tem uma grande participação na trajetória e evolução da História da Cutelaria, no Brasil, na Alemanha, na Europa, no mundo enfim.

Impossível contar a história da Corneta sem mencionar as tradições de Solingen/Alemanha, localizada próxima à Colônia, cidade fundada pelos romanos às margens do rio Reno. No início da era cristã, Solingen apresentava algumas características naturais que favoreceram o desenvolvimento de atividades cuteleiras naquela região. Era rica em abundantes florestas, com um suprimento ilimitado de madeira para fazer carvão, assim como grandes quantidades de minério de ferro.

Por centenas de anos Solingen foi a supridora exclusiva de lâminas de espadas e de vários outros tipos de utensílios para Colônia, sendo inclusive, proibida de vender a qualquer outro cliente que não fosse originário daquela cidade.

Pouco tempo depois, em troca da França reconhecer o Duque Maximiliano como o rei da Bavária, a região de Solingen passou ao domínio francês. Napoleão Bonaparte, governando a França, aboliu todos os regulamentos de ofício, fomentando a competição entre os artesãos e comerciantes até então sufocados pelas Guildas*, promovendo também um rápido desenvolvimento no setor. Uma das empresas decorrentes do fim do sistema das Guildas de artesãos de Solingen foi a Gebruder Weyersberg (Irmãos Weyersberg), que se manteve na companhia desde a Era Napoleônica.

Após a queda de Napoleão, em 1815, Solingen passa a fazer parte do reino da Prússia. Nessa época se consolida um processo típico de produção e surgem os nomes que fizeram a grandeza da cutelaria alemã. Todos os componentes de um item de cutelaria começam a ser produzidos num único estabelecimento, incluindo montagem e embalagem. Os artesãos trabalhavam em suas próprias casas, assim, cada moradia de Solingen tinha uma oficina de cutelaria no quintal. Os mestres das antigas Guildas podiam aceitar aprendizes e passar adiante o seu conhecimento, que curiosamente culminou numa extrema especialização e competição pela máxima qualidade. Esse sistema é tão marcante na atividade cuteleira de Solingen que, embora em bases mínimas, se mantém presente até hoje.

Com uma história familiar de forjadores e espadeiros, os irmãos Johann Wilhelm e Peter Weyersberg fundaram em 1º de janeiro de 1787 a companhia destinada, segundo os registros da prefeitura de Solingen ainda existentes, “a produzir principalmente lâminas para facas e espadas”. A árvore genealógica dessa família se confunde com a história da cutelaria de Solingen e da tecnologia metalúrgica empregada no mundo. De 1787 a 1815, a empresa se organizou, enfrentando ao mesmo tempo o inesperado Bloqueio Continental imposto por Napoleão, que impedia a comercialização para o importante mercado da Inglaterra. Em 1820, mais uma vez a empresa enfrenta uma retração de mercado, com a produção de armas de fogo. A indústria de facas se volta para a fabricação de ferramentas e afins. Em 1883, consolida-se a fusão da Gebr. Weyersberg com a firma W. R. Kirschbaum & Co., então a maior indústria e exportadora de Solingen. É em 1908 que acontece a fundação da Solingen Axt - & Hauerfabrik GMBH (Fábrica de Machados e Facões de Solingen Ltda.), denominada posteriormente Berg & Co. Finalmente, no período de 1903 a 1914, já sob o comando da família Berg, os negócios ganham impulso com uma forte concentração nas exportações para América do Sul, África e resto da Europa, culminando na fundação de inúmeras filiais nesses continentes, inclusive no Brasil.

 

E o Brasil ingressa na ancestral tradição do aço forjado

Consagrada em território europeu desde 1787, e com objetivos comerciais claramente definidos para os mercados da América e África, a família Berg concentra os esforços de sua diretoria na consolidação dos mercados externos. Respeitando essa política, Richard Berg visita o Brasil várias vezes, entre 1902 e 1911. Na ocasião, ele ocupava a função de dirigente máximo da companhia, assim como ocupou por muitos anos a presidência da Câmara de Comércio de Solingen. Nessa época, para abrigar as operações brasileiras, fundou a Beckmann & Co., uma importadora sediada na rua Florêncio de Abreu, em São Paulo, típico endereço de empresas do ramo de ferramentas e tradicional pólo comercial nesse segmento até hoje.

Com o falecimento de Richard Berg em 1917, seus quatro filhos passaram a operar as empresas da família. Coube aos irmãos Friedrich (Fritz) e Eugen a gestão dos negócios no Brasil, quando optaram por construir aqui uma fábrica. Eugen encarregou-se da transferência das máquinas e sua instalação, voltando posteriormente à Alemanha. Fritz Berg mudou-se para o Brasil em 1932, e assumiu a direção da fábrica que, sob o nome de Indústria e Comércio Corneta S.A., inicialmente produzia canivetes de lâminas forjadas com um desenho similar aos canivetes ingleses da marca Rodgers. Aliás, entre os brasileiros era conhecido como “pica-fumo”.

Conforme a empresa se desenvolveu, novos produtos foram adicionados à linha, principalmente tesouras. Em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, como toda empresa de origem alemã, a Corneta sofreu a intervenção do governo brasileiro até 1948. Ao retomar o controle da empresa, adquiriu de seus parentes na Alemanha, o controle acionário da fábrica, transformando-a numa indústria 100% brasileira.

A produção de itens forjados para outras indústrias também passou a ser rotina na vida da Corneta, principalmente com o desenvolvimento do incipiente parque industrial brasileiro. No final dos anos 50, registra-se o forjamento de armações de revólveres para a Indústria Nacional de Armas.

Na mesma época, instalam-se no Brasil, pela iniciativa do presidente Juscelino Kubistcheck, as primeiras indústrias automobilísticas, um campo vasto para o uso de peças forjadas, produto em que a Corneta já acumulava grande experiência. Entra nesse mercado ao adquirir em 1962, a Soliden Forjados, aprimorando e desenvolvendo sua linha de produtos para a indústria automobilística.

A dualidade entre produtos de cutelaria e forjados para automóveis manteve-se até 1978, quando a empresa decide fechar sua unidade na rua Turiassú, em São Paulo/SP. O bairro tornava-se cada vez mais residencial, e as indústrias gaúchas passaram a fazer intensa concorrência, estimulando a Corneta a concentrar seus esforços no promissor segmento automotivo.

Fritz Berg fundou a Corneta no Brasil em 1932, e hoje conta com a participação de seu filho Ricardo, o neto Fritz e o bisneto Ricardo. Juntos, eles sucederam a direção da companhia, tendo a direção atual nas mãos do bisneto Ricardo Berg, mas preservando a presença do neto Fritz Berg no Conselho Geral.

Em 1960, a Família Berg se uniu à Família Bennecke, e juntas comandam a empresa até hoje. As atividades do ramo alemão encerraram-se em 1997, sendo a Corneta do Brasil a única em atividade sob o comando dos Berg e Bennecke.